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Contra quem estamos lutando?

  • Ares 

Hoje eu vi um vídeo que mexeu comigo, tem sido muito pouca coisa que eu tenho visto e que tenha mexido comigo. Muitas vezes o que mais me incomoda é por uma surpresa negativa, muito mais do que uma surpresa positiva.

O vídeo em questão é este: https://www.youtube.com/watch?v=ZVyt5ZcRYa4&ab_channel=ChristianDunker

É meio longo, afinal são quase 38 minutos, mas eu acho que até isso é um filtro.

Quem assiste 38 minutos e entende o argumento discute ponto vista e traz pra discussão crescimento, diferente de quem vê uma frase, tira do contexto e diz “não concordo”.

Isso é uma discussão pra outro dia.

Bom, esse vídeo mexeu comigo, dentre vários pontos problematizados no vídeo, me trouxe um que fiquei pensando.

– A luta é contra quem?

Foram questões sociais extremamente relevantes e eu acho esse tipo de discussão extremamente sadia, mas eu quero usar da abstração pra trazer isso pro que nos afeta diariamente, que representa uma outra esfera pra se pensar.

Quando eu falo “fetiche é uma forma de conexão”, “BDSM é uma técnica nada mais”, “sem troca não tem jogo”, muitas pessoas se ofendem “isso não é o verdadeiro BDSM”, “você não entende do que está falando”, “você está errado porque não é assim”, etc.

Eu vejo, que tem um ponto chave que faz total diferença e é basicamente o que eu luto contra e essas pessoas lutam a favor, você consegue adivinhar?

Quer uns minutos? Rs

Vamos a história.

Era uma vez uma pessoa que fazia parte de um grupo. Que fazia parte de uma massa. Ela acreditava em algumas crenças, ela vivia como as pessoas do seu bairro vivem, ela trabalhava como algumas pessoas trabalham, ela transava como algumas pessoas transam.

Eu fazia parte das pessoas sem barba, no meu trabalho era necessário, eu trabalhava no setor de compras de uma multinacional, de uma empresa que talvez você conheça chamada FIAT. Em algum ponto do meu passado eu saí dessa empresa, em algum ponto do meu passado eu comecei a ter barba.

Me tornei uma pessoa completamente diferente? Provavelmente não.

Me tornei um ser único? A única pessoa da face da terra com pelos no rosto? Não.

Então o que mudou?

Eu saí de um grupo e fui pra outro.

Eu sai de um grupo, que era “sem barba”, e fui pra um grupo que era “com barba”.

É mais comum do que você pode imaginar, existem grupos pra tudo.

Pessoas que usam calcinha, pessoas que não usam calcinha.

Pessoas que usam sutiã, pessoas que não usam.

Pessoas que são casadas, pessoas que são solteiras.

Pessoas que cursaram Curso A, pessoas que cursaram curso B.

A gente se encaixa em grupos pra tudo.

Às vezes você mudar uma pequena característica não te faz completamente alheio a um grupo.

Eu não como carne, quer dizer que eu moro em uma comunidade que não come carne? Não, provavelmente até dentro da sua própria casa tem pessoas que comem carne.

Você não gosta de Faustão, as vezes dentro da sua casa tem pessoas que gostam, mas no geral vocês tem mais coisas em comum do que pontos de atrito que geram um rompimento.

Ta, e qual o ponto chave que faz total diferença e é basicamente o que eu luto contra e essas pessoas lutam a favor?

É onde gera total rompimento.

Você provavelmente já foi de um grupo que tinha um sexo mais simples. Não usava tantos acessórios, não inventava jogos eróticos, nem pensava em umas roupas interessantes. Você provavelmente foi de um grupo chamado “baunilhas” (talvez baunilhistas, que seriam as pessoas que “praticam o baunilha”) rs.

Chegou num ponto em que essa forma de se relacionar ficou meio rasa, afinal de contas, os fetiches são uma extensão de quem você é, e você precisa que as pessoas te conheçam mais profundamente pra poder se relacionar com elas, além de precisar de uns jogos mais gostosos pra te envolver.

Aí você descobriu que existe Fetiche, BDSM, Tantra e baunilha.

Em algum momento você provavelmente decidiu que seria “BDSM”. Era (as vezes ainda é) um mundo novo e você descobre a cada dia um “Fetiche” novo, o que teoricamente te coloca também nos grupos dos fetichistas.

Dentro do baunilha existia um padrão de comportamento, sexo toda quinta, terminava rápido e normalmente antes da mulher chegar ao clímax, com um período refratário grande por parte do homem e a mulher insatisfeita. Esse é mais ou menos o script de um sexo heteronormativo.

Você queria liberdade.

Em algum momento você acreditou que liberdade seria encontrada em um novo grupo. “Nossa, os BDSMers são mais livres, eles se divertem e gozam mais.”

Aí veio o desejo: “eu vou romper com o baunilha e me jogar nesse mundo novo”.

Aí começa o show de horrores:

– Você é Dom ou sub?

– Você é Domme ou sub?

– Curte o que?

– Você é Brat, não é?

– Quem dá o cu é sub.

– Domme não transa com sub.

– Curte BDSM?

– Todo sub tem que chamar todo Dom de Senhor. (e qualquer variação disso).

– Postura de Dominador.

– Postura de Dominadora.

– Dommes de respeito.

– A hierarquia, e as regras, e as bases, e os protocolos, e etc., etc. etc., são a base do BDSM.

Daria pra dar mais exemplos, mas acho que você entendeu.

No baunilha, como “baunilhista” (é engraçado falar assim ahahaha), você tinha um padrão, que era seguido por você e complacente com seu parceiro(a).

Chegou o dia do basta e você queria principalmente liberdade desse padrão.

Você busca uma quebra de padrão e o que dizem com as perguntas e afirmações acima?

Se encaixe em um novo padrão, mesmo que ele não faça sentido pra você, mesmo que ele não te dê tesão.

Onde está o rompimento que eu proponho?

Eu falo pra romper com todos os padrões? Não.

Nunca falei pra abolir por exemplo a penetração, nunca falei pra abolir o sexo numa brincadeira BDSM, mas isso de ter sexo não é coisa de baunilha?

Eu acredito que melhor do que romper com todos os padrões, é escolher com quais você quer romper.

No baunilha tinha sexo toda quinta. Eu gosto disso? Se sim, por que parar?

Eu gosto de sexo? Homem x Mulher? Homem x Homem? Mulher x Mulher? Homem x Mulher x Mulher x Homem x Homem? Qualquer combinação de sexo, mesmo que seja um sexo “tumultuado”, se eu gosto, por que tenho que romper?

O grande problema e que é o que gera todo esse atrito, é que as pessoas não conseguem romper os padrões que elas não veem.

Elas se apegam a eles por uma única questão, medo da mudança.

“Eu era baunilha, tava ruim, eu fui FORÇADO a mudar e doeu, não quero mudar de novo, construir outra identidade, aprender coisas novas, Deus me livre.”

“Eu estava insatisfeito, só tomei uma decisão quando algo caiu no meu colo e eu fui forçado a me mover”.

(Aqui normalmente a gente pega pessoas que o parceiro(a) descobriu sobre BDSM e quer aquilo na relação. A pessoa estava confortável, como o parceiro descobriu BDSM, agora gera um desconforto.)

Essas pessoas que relutam em aceitar a mudança são as que empurram padrões pra pessoas como você que querem liberdade, elas tiveram um pouco de mudança, por causa de ego, por causa de traumas, por causa de qualquer motivo, isso foi pequeno, mas de alguma forma empoderou e elas querem empurrar isso pras outras pessoas, mesmo sem entender direito o que aconteceu e como. Por isso você vê tanta gente falando de muita coisa de forma rasa.

E aí que vem a sua escolha.

Quais padrões você quer romper? Qual Matrix não te serve mais? De qual caverna você quer sair?

Uma dica extra, você só consegue romper os padrões que consegue ver, as vezes à primeira vista fica claro, as vezes demora um pouco mais, as vezes leva anos. Pra ver os padrões com o baunilha pode ter levado anos, não deixe que “romper com os padrões tóxicos do BDSM e do baunilha” demore.

Você tem orgasmos melhores a se dar de presente.

Segunda dica. Você não precisa romper totalmente. Você pode romper quando for conveniente. Às vezes você é baunilha, as vezes você é BDSM, funciona pra mim.

Terceira dica. Romper com padrões tóxicos é obrigatório, eles te limitam e limitam quem está ao seu redor, te deixam com medo e com paranoia. Te fazem entrar numa prisão, cada vez mais profunda, que te isola e te traz mágoa.

Nota final

Não vai mudar minha vida se todas essas pessoas que são “ex baunilhas” limitadas dentro do BDSM se tornassem outra coisa, eu não escrevo pra elas, eu escrevo pra quem quer mudar, quem quer mais.
Portanto, obrigado por me ler até aqui.
Atenciosamente, Ares.

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